Um grupo de mulheres de Barcarena descobriu na união uma maneira de mudar suas histórias de vidas. Juntas elas formam a Cooperativa de Costura e Moda de Barcarena (Coopermodas), uma empresa que garante renda, cidadania e autoestima para 25 mulheres do bairro São Francisco.
O projeto da cooperativa começou em 2007 quando as mulheres descobriram a possibilidade de gerar renda aproveitando a habilidade com a costura que aprenderam desde cedo, dentro de casa. Mobilizadas pela então presidente do centro comunitário do São Francisco, Áurea Marques, começaram as primeiras reuniões de organização. “Somos todas mães de família que costuravam cada uma na sua casa e quando surgiu a idéia do projeto, surgiu a possibilidade de melhoria de renda”, conta a presidente da cooperativa, Josiane Dias.
Hoje donas da própria empresa, as cooperadas tornaram-se fornecedoras capacitadas para participar de concorrências comerciais e atender grandes empresas. A cooperativa está regularizada, possui registro na Secretaria de Estado da Fazenda (SEFA), tem conselho administrativo e funções bem definidas para as cooperadas.
Como incentivadora do projeto, a Alunorte, refinaria de alumina sediada em Barcarena, integrou a Coopermodas ao seu quadro de fornecedores. A cooperativa já produz para a empresa os protetores de flange, um equipamento de proteção coletiva utilizado pelo setor industrial. Foram confeccionados, até janeiro de 2009, aproximadamente 2.200 protetores. A cooperativa também está produzindo para a refinaria um suporte em tecido para equipamento de proteção individual chamado diphoterine. As costureiras já produziram mais de 1.000 unidades desse material.
O começo foi difícil e exigiu principalmente disposição das mulheres para aprender novas atividades, capacitar-se para atuar como empresárias e, sobretudo, conciliar as novas obrigações com as tarefas de mãe e dona de casa. “Só costurar não as credenciava. Com apoio da Alunorte, elas passaram por treinamento em máquinas específicas e tiveram capacitação em cooperativismo e associativismo e continuam se atualizando” explica José Almério, analista de Relações com Comunidades da Alunorte, que acompanha a cooperativa desde o início. O apoio da refinaria veio com o custeio de cursos do Sebrae e com a doação das primeiras máquinas de costura e da mesa de corte industrial para o projeto.
Costureira desde os 12 anos, Aurélia Miranda lembra que aprendeu a coser sob a luz da lamparina, fazendo roupas para vizinhos e amigos usando uma máquina manual. Hoje, aos 54 anos, ela é a mais velha entre as cooperadas e uma grande incentivadora do grupo. Tem orgulho de dizer que aprendeu coisas novas com a cooperativa. “Aceitei participar do projeto e estou me dando bem. Aprendi a costurar em máquina industrial, sei fazer flange, que eu nem sabia o que era, e aprendi muitas outras coisas. A vida está melhorando e vai melhorar mais”.
O entusiasmo é coletivo. Para as mulheres da Coopermodas sobram disposição e vontade de continuar desenvolvendo um projeto bem-sucedido que saiu do sonho e tornou-se realidade. “A gente tem que lutar pra conseguir os objetivos que quer. Se a gente não lutar, a gente não consegue. Eu estou lutando pra dar uma vida boa pros meus filhos. E vou lutar sempre”, conta Maria Alba de Araújo.
Investindo na moda sustentável
Os protetores de flanges destinados à Alunorte são o principal item na linha de produção da Coopermodas. São indispensáveis para a segurança dos empregados, pois protegem as “emendas” nos conjuntos de tubulações que formam a planta industrial. “O protetor evita que o material que passa dentro da linha, a soda cáustica, por exemplo, se projete em longa distância, atingindo alguém”, explica o gerente da Divisão de Águas e Efluentes da refinaria, Sandro Cunha.
Mas a cooperativa revela o empreendedorismo das mulheres. Elas apostam na tendência da moda sustentável e produzem bolsas e sacolas de materiais ecologicamente corretos. O resultado são peças diferenciadas que seduzem pelo custo e pela originalidade.
Na linha de produtos em favor do meio ambiente, a Coopermodas produz a bolsa-banner. A idéia de reaproveitar a lona em bolsas surgiu em julho do ano passado e logo as mulheres estavam produzindo os primeiros modelos. “A princípio criamos bolsas para cada uma das 28 cooperadas e ‘desfilamos’ pela cidade com a nossa produção para ver como seria a aceitação. E as pessoas gostaram!”, conta Josiane Dias, presidente da Coopermodas.
Bonitas e diferentes, as bolsas chamam a atenção e atraem clientes para as cooperadas. Inspiradas pela modelagem de outras bolsas, as costureiras criam suas próprias peças, mas conseguem fazer produtos exclusivos, já que o design das bolsas é planejado a partir da estampa e das cores de cada banner. O material para confecção é doado pela Alunorte.
Atraentes pelo aspecto ecológico, já que aproveitam um material normalmente descartado como lixo, as bolsas também conquistam pelo preço: custam entre R$ 5 e R$ 25. “Vendemos na própria cooperativa e nas exposições e bazares que fazemos. Algumas delas já foram até para fora do Pará”, orgulha-se Josiane.
Duas delas estão desfilando por terras cariocas. Moradora do Rio de Janeiro, a fisioterapeuta Valéria Rosa Pinto ganhou um modelo da bolsa sustentável e comprova: a criação faz sucesso também na terra da bossa nova. “Original, criativa, mas acima de tudo, ecologicamente correta. Estas são as exclamações que mais ouço quando uso a bolsa”, conta.
Se a bolsa agrada às mulheres, a disposição e a dedicação das cooperadas também. "Ganhei a bolsa-banner de um amigo muito querido, como presente de aniversário. Quando ele me disse que era do Pará, já fiquei super comovida. Mas quando ele me falou que era fruto do trabalho de uma cooperativa de mulheres, ganhou uma outra dimensão, porque simbolicamente envolve a legitimação do trabalho e do universo feminino", declara Simone Guimarães, professora universitária que mora em Niterói (RJ).
A Coopermodas também produz outro item sustentável: as ecobags, sacolas ecológicas produzidas em algodão rústico que são distribuídas pela Alunorte como incentivo à substituição das sacolas plásticas no dia a dia. A sacola foi elogiada na Conferência Internacional do Instituto Ethos, um dos grandes eventos de sustentabilidade do Brasil. Para as cooperadas, fica a alegria de ver sua produção reconhecida, conta Josiane. “Eu sinto orgulho porque foi feito aqui, nasceu aqui, enfrentamos dificuldades por não sabermos como produzir. Dá orgulho ver as pessoas comentando.”
|